Posts da Semana

03/10/2009

semana3

Especial Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

09/10: 0 – O Solista (Mostra – SP)

22/10: 1 - A Procura de Eric (Mostra-SP)

26/10: 2 – Ervas Daninhas (Mostra-SP)

28/10: 3 – A Fita Branca (Mostra-SP)

02/11: 4 – 35 Doses de Rum (Mostra-SP).

04/11: 5 – Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (Mostra-SP)

06/11: 6 – Alga Doce (Mostra – SP)

09/11: 7 – A Batalha dos 3 Reinos (Mostra-SP)

11/11: 8 – A Ressurreição de Adam (Mostra – SP)

13/11: 9 – Vencer (Mostra-SP)

16/11: 10 – A Ilha de Bergman (Mostra – SP)

18/11: 11 – Deixe Ela Entrar (Mostra – SP)

20/11: 12 – Mãe (Mostra – SP)

23/11: 13 – Seguindo em Frente (Mostra – SP)


Ouvir Estrelas

22/11/2009

Ora ( direis ) ouvir estrelas!
Certo, perdeste o senso!
E eu vos direi, no entanto
Que, para ouví-las,
muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila.
E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido tem o que dizem,
quando estão contigo? “

E eu vos direi:
“Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e e de entender estrelas

Olavo Bilac


12 – Mãe (Mostra – SP)

20/11/2009

Não sou grande conhecedor do cinema coreano. Aliás apenas um filme da região aparece entre meus favoritos. Dificil para quem gosta da sétima arte nunca ter ouvido comentários sobre Oldboy de Chan-wook Park, talvez a obra máxima do cinema coreano neste século. Oldboy merece uma análise individual, contudo serve como referência para a discussão de uma outra obra sul-coreana – Mother de Joon-ho Bong. Semelhanças? Talvez uma estrutura narrativa que não é exclusiva do cinema da região, mas que aparece com força em ambos os filmes.

Com uma abertura estranha, reconhecemos uma senhora que aparece séria e aos poucos começa a dançar em um campo, em um movimento que parece estimulado pelo vento. Prontamente percebemos que aquela mulher não é normal, pelo contrário, no decorrer do filme suas atitudes definirão o quanto perturbada encontra-se a mesma. A personagem, mãe que intitula o filme, possui uma relação doentia com o único filho, rapaz com déficit mental e que logo estará envolvido em um caso de assassinato. No começo do filme a mãe apresentará diversos comportamentos que a caracterizariam enquanto “coruja“, mas a preocupação exagerada desvia o adjetivo para um outro patamar – o da loucura.

A narrativa é calcada no assassinato de uma garota e na acusação do único filho da senhora descrita anteriormente. Para provar a inocência do rapaz, a mãe se dispõe a investigar todos os envolvidos no crime. Neste momento presenciaremos o conflito do “amor” de Mãe contra o que seria honesto e correto perante o outro, como na cena da tortura de dois jovens em troca de informações. Como no filme de Chan-wook Park, ocorrerá um turning point para desestabilizar a própria narrativa e o espectador, em uma aparente surpresa digna dos melodramas mexicanos. Contudo a virada de Mother aparece bem mais fraca que a de Oldboy.

Inicialmente a chatice da mãe parece provocar raiva e constragimento, inclusive ao espectador, sentimento que gera repulsa a figura da atriz que interpreta a senhora. Mas como personagens nem sempre são construídos para agradar quem os assiste … temos uma ótima anti-heroína, capaz de tudo pelo seu único bem – o filho. Já o filho, tolo demais, fica mais próximo ao sentimento de pena, um coitado que com uma mãe daquelas só poderia ser de fato perturbado também. O filme preso a essa relação familiar provocará conflitos individuais ao final, onde ambos guardarão o segredo alheio. Um desvio interessante para que a obra não mergulhasse na vala comum.

Eis algo essencial em ambos os filmes citados – o choque de valores. Mesmo em sociedades tão rigídas como a oriental, existe um conflito entre o passado, o presente, a tradição e a modernidade. É bom ver que o cinema coreano tem sua produção refletindo este momento, mesmo que indiretamente. A bem da verdade o que me preocupa agora é a situação materna do país, com mulheres tão possessivas. Depois de algo tão grave, não dá pra espetar uma agulha na perna e sair dançando como nossa mãe desnaturada!


11 – Deixe Ela Entrar (Mostra – SP)

18/11/2009

Há um bom tempo que a falta de criatividade impera no circuito de filmes de terror, principalmente se a assombração em questão tem dentes pontudos e é chegada num Iogurte de Morango. Já desconfiado fui ver o filme que pelo enredo prometia inovar o genêro, já que os protagonistas seriam adolescentes. O medo de ver um Crepúsculo na tela logo sumiu com Deixe Ela Entrar do sueco Tomas Alfredson. Para começar o que me agradou fora a utilização de poucos clichês, visto que filmes com vampiros sempre desenvolvem vários. Mortes e sangue são comuns e essenciais pois fazem parte da dieta da espécie em questão.

O filme gira em torno de Oskar (Kåre Hedebrant), um garoto de 12 anos que sofre com o Bullying na escola onde estuda. O encontro com a nova vizinha Eli (Lina Leandersson), mudará o circulo de amizades do garoto, antes preso a uma faca com a qual ensaiava um possível revide. Alfredson desenvolve uma narrativa que primará pelos conflitos da fase adolescente tanto através de Oskar quanto de Eli, duas crianças rejeitadas, uma pelo grupo escolar e a outra por questões existenciais, já que a vampira é uma morta-viva, personagem que na teoria não existe ou deve no mínimo se esconder.

Oskar observa o comportamento estranho de Eli mas não a questiona, pois sabe que na aproximação com a garota poderá construir uma amizade ou até um sentimento maior. A carência de Oskar também é expressa por uma família destituida de interesse na sua figura. Ele mora com a mãe que aparece apenas quando precisa punir suas atitudes ou cuidar dos ferimentos. Já Eli tem a companhia de um senhor que ao fim chamará de pai, sujeito que tem o trabalho de  matar pessoas para colher sangue para a garota. Com a distância dos adultos tão forte, será a troca de experiências entre os dois adolescentes a parte mais interessante da obra.

A trilha-sonora sutil conduzirá bem o filme dotado de um ritmo muito bom e que as vezes parece flanar frente aos olhos do espectador. Algumas cenas são um tanto bizarras como no primeiro beijo entre Oskar e Eli, momento em que ela desiste de resistir aos próprios sentimentos. Quanto mais a narrativa avança, os laços entre os dois personagens ficam mais fortes. Até o momento chave do filme, cena final em que Oskar é ameaçado pela turma que o persegue a ficar mais de 3 minutos sob a água da piscina. Enquanto a câmera permanece em Oskar o que temos é uma vingança sobre a água que anima até o mais frio dos espectadores suecos.

Ao fim, parece que Deixe Ela Entrar consegue inovar um genêro tão mal-tratado ultimamente. O vampiro precisou renascer na figura de uma garota. Apesar de estar no segmento terror, o filme trata muito mais de dilemas de uma fase que por si só já é horrorosa – a adolescência.


10 – A Ilha de Bergman (Mostra – SP)

16/11/2009

bergman

Ingmar Bergman. Que sujeito fantástico. Há quem o considere o melhor diretor de todos os tempos. Não retruco, mesmo com meus preferidos conheço a dimensão do seu trabalho no cinema e tenho certeza – se Bergman fosse norte-americano o reconhecimento seria muito maior. O primeiro filme que vi do mestre sueco foi O Sétimo Selo, um dos melhores filmes que vi na minha vida. Além de inteligente, a obra é bárbara tecnicamente. Eis um dos poucos diretores que consegue manter  nível elevado nos quesitos quantidade e qualidade. Devo agradecer já que meu contato com tal cinema ocorreu por conta de uma amiga apaixonada pelas temáticas desenvolvidas pelo diretor.

Com tantos adjetivos, algo deveria ir mal na jornada de Bergman. Aos que tiverem a oportunidade de assistir ao belo A Ilha de Bergman perceberão que muitos filmes do diretor refletem experiências próprias. Bergman sofreu durante a infância com uma educação extremamente rígida (o pai era pastor). Porém o choque inicial ocorre quando entramos na casa do diretor que nos apresenta diversas referências aos pais, através de móveis, relógios e outros objetos. Não há ódio pelos pais, pelo contrário o sueco nutre um sentimento de saudade através de objetos que pertenceram a sua infância e família.

Bergman é o Rousseau do século XX, abandonou os próprios filhos para morar sozinho e desenvolver a carreira. Os problemas de relacionamento que vemos em seus filmes condizem com a vida real do diretor que na velhice prefere se isolar na ilha que por muitos anos habitou. A Ilha de Bergman nos traz os últimos anos de vida de um artista fantástico mas que na curiosa obra parece mais próximo de uma análise pessoal ao invés de artística. Quem não gostaria de conhecer o cantinho que o gênio habita?

Lembro-me de uma visita a Casa de Pablo Neruda em Valparaíso, Chile. Um lugar maravilhoso com um quarto com uma janela em forma de meia lua que dava para ver todo o porto da cidade. Pensei com meus botões que deitado ali, eu  poderia desenvolver melhor minhas noites poéticas. Mas ocorre algo diferente com Bergman, o isolamento não me interessa, mas para o sueco talvez tenha sido a forma mais adequada de lidar com tantos sentimentos ambiguos. Com tanta fama e tantas dores, Bergman encontrou refúgio em uma ilha com poucos moradores.

O documentário faz bater aquela saudade de pegar um filme do mestre para assistir. Ainda bem que ele fez tantos que ainda estou longe de conhecer todos. A Ilha de Bergman apresenta um sujeito simples, com uma rotina normal pela idade, é o espaço de repouso para quem fez muito. Seria apenas um pedaço de terra cercada de água por todos os lados. Mas não é só isso, é a Ilha de Bergman, nome que é sinônimo de Sétima Arte.


Pássaro

15/11/2009

birds

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

Cecília Meireles


9 – Vencer (Mostra-SP)

13/11/2009

vincere

Vencer do diretor italiano Marco Bellocchio inicia sua jornada de um modo peculiar – o desafio que Benito Mussolini (Filippo Timi) faz a Igreja Católica, contestando a hipótese de qualquer existência divina. O momento histórico antecede a Primeira Guerra Mundial e tal desafio emerge Mussolini a uma posição de destaque. Entretanto a principal briga do então jornalista é ofuscada por Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), mulher que se apaixona pelo futuro Dulce. Em um gesto impulsivo Ida vende todos os bens para financiar o panfleto socialista de seu amante, o Popolo d’Itália.

Logo as convicções socialistas impactarão em uma Itália confusa, prestes a entrar na Grande Guerra, é neste momento que Ida perderá sua grande paixão de vista. Mussolini parte para a Guerra após ser expulso do Partido Socialista Italiano. Ao voltar do conflito, Benito parece não se importar com sua amante e filho casando-se com Rachele (Michela Cescon). Nesse período o Dulce começa a organizar um grupo que logo tomará a frente do país propagando ideais nacionalistas, eis a base do movimento fascista com a fátidica proclamação de Mussolini a Primeiro Ministro com plenos poderes.

Uma história um tanto parecida com a trajetória de Adolf Hitler logo desembarcará  no sofrimento de Ida, internada em um manicômio católico por se auto-proclamar como esposa do Dulce. Convicta de sua posição como primeira-dama, Ida não volta atrás na sua decisão, fato que poderia ser a garantia de liberdade e proximidade com o filho, afastado da própria mãe. O choque entre Mussolini e a Igreja vira aliança pela Concordata de São João Latrão, termo que coloca o catolicismo como religião oficial da Itália com a fundação do Estado do Vaticano. Eis uma polêmica que a Igreja não gosta de abordar – o aparente silêncio da Instituição durante a Segunda Guerra Mundial.

O filme de Bellocchio mistura imagens de arquivo em preto-e-branco com a reconstituição histórica em cores, fato que cai bem a narrativa que em alguns momentos toma ares de cine-jornal, rememorando diversas propagandas nacionalistas. Dessa forma a fotografia e a montagem são destaques em uma produção que as vezes beira ao melodrama mexicano. O drama por vezes irrita o espectador ao nos questionarmos – “Mas ela não sabe o quão canalha é Mussolini?” A resposta parece próxima do não, visto que na paixão o olhar sobre o outro sofre grande transformação. Se ainda viva para presenciar e digerir as atrocidades cometidas por Benito Mussolini talvez a opinião fosse diferente.

O filme resgata a história daquele que muitas vezes está a sombra de outros líderes como Josef Stalin e Adolf Hitler. Com a  presença de Mussolini há a formação de um trio de ditadores caracterizados pela insanidade e derramamento de sangue. Esta foi a primeira produção em que vi a reconstituição da vida particular do Dulce italiano, precisamos de mais filmes do genêro para digerir outros temas além do nazismo. Bellochio faz um filme que deve ganhar grande importância com o tempo, por tratar uma história particular na atual conjuntura política italiana – Agora o país presencia os escândalos de outro grande canalha – Silvio Berlusconi.


8 – A Ressurreição de Adam (Mostra – SP)

11/11/2009

adam

Tudo caminhava para uma ótima sessão. Cinema parcialmente vazio, brigas por lugares amenizadas, até que alguém levanta antes do ínicio da sessão e esbraveja – “Pessoal a repescagem desse ano só ocorrerá na Cinemateca e no Cinesesc, precisamos nos mobilizar! Vamos mandar um e-mail para a organização!” Ao que a mulher ao meu lado incomodada com tal situação retruca – “Não vou fazer isso com o Leon Cakoff que faz um trabalho maravilhoso trazendo tantas obras para nós.” A discussão precedeu uma produção pela qual nutria imensa curiosidade. A Ressurreição de Adam do diretor Paul Schrader fora um dos filmes mais comentados pela crítica que pontuava uma abordagem pouco comum de um tema tão adaptado pelo cinema – o Holocausto.

Adam (Jeff Goldblum) é um sujeito que caminha entre a genialidade e  a loucura, como forma de tratamento o personagem é encaminhado a um sanatório com outros pacientes que possuem algo em comum, todos ainda sofrem com as consequências do Holocausto. Aos poucos conhecemos a trajetória de Adam , comediante de grande prestígio em uma Alemanha prestes a ser dominada pelo regime nazista. As memórias de Adam são inseridas no decorrer do filme como flashbacks ou inserções longas que revelarão a ruína do personagem, sua família será desintegrada pelos campos de extermínio e a humilhação será extrema, visto que Adam ficará sob aprisionamento do Comandante Klein (Willem Dafoe).

Klein destitui o caráter humano de Adam o transformando em animal de estimação, situação que em diversas passagens volta a mente de nosso personagem, atormentado pelo passado. Adam é um sujeito mítico, permeado por certa magia e que parece prever tudo que o cerca. Será dessa forma que descobrirá algo no sanatório que causará grande intriga. Preso em um dos quartos, existe uma criança com comportamento animalesco. Tal personagem próxima ao Garoto Selvagem de François Truffaut transformará o ambiente. Inicialmente rejeitada por Adam é nela que ele encontrará a ressurreição necessária para superar seus piores traumas.

A proximidade entre Adam e o Garoto Selvagem transformará a vida de ambos, já que o comportamento canino da criança lembra toda a humilhação sofrida pelo personagem no campo de concentração. Nesse momento Schrader desenvolve 3 núcleos narrativos que formam uma teia ao redor de Adam, muito bem interpretado por Jeff Goldblum. Entretanto falta uma certa força ao filme que tem pontos altos e baixos durante toda a narrativa, destaque para as cenas entre Adam e a enfermeira do sanatório, momento cômico em que ele destila seu poder de sedução sobre uma personagem ninfomaníaca.

Infelizmente uma cabeça enorme privou meu olhar da parte técnica da obra. Tive o azar de sentar algumas fileiras atrás de um sujeito que tinha o corpo do Gustavo Borges e a cabeça do Selton Melo, fato que atrapalhou o acompanhamento das legendas digitais. Infelizmente ainda existem aqueles que acham que estão sozinhos nessa existência. Diversas pessoas acompanharam o filme de pé por conta de um cabeção. Eis um azar que ocorre algumas vezes na jornada cinematográfica. Futuramente voltarei a ver o filme, obra mediana que criativamente desenvolve um tema tão delicado na história da humanidade.


7 – A Batalha dos 3 Reinos (Mostra-SP)

09/11/2009

3reinos

Cada vez espero menos do cinema chinês, pelo menos das produções que desembarcam em nosso país. Desde o sucesso e merecido reconhecimento de O Tigre e o Dragão (produção que inclui outros países) percebo que as obras seguem uma linha que peca pela similaridade. Há muita tradição, heroísmo, pirotecnias e coreografias no embate entre os grupos que rivalizam as histórias épicas chinesas. Essa fórmula re-aparece em A Batalha dos 3 Reinos de John Woo. Comecei a respeitar Woo ao assistir o seu curta Song Song na produção Crianças Invísiveis da Unicef. Não a toa o trabalho encerra a seleção internacional com uma alta dose dramática.

Confiei em Woo e principalmente em Tony Leung, ator presente em diversos filmes de Wong Kar Wai. Porém me decepcionei ao ver mais do mesmo, em uma produção de alto orçamento e elevado refinamento visual. O primeiro choque está na narração inicial em inglês, idioma que desaparecerá como fumaça do restante do filme. A impressão é que faltaria uma introdução para o público estrangeiro, portanto uma decisão de quem injeta a verba serviria de explicação. Logo adentramos em uma jornada épica onde os personagens serão apresentados de forma clássica, cada general é nomeado, porém a principal diferenciação não será pelo nome, mas talvez pelo corte de cabelo, barba e figurino.

Algo incomoda na produção, talvez seja a proximidade com a narrativa de O Senhor dos Anéis, visto que os personagens desenvolvidos no filme parecem cópias dos imortalizados na literatura de Tolkien, apesar de Woo adaptar um romance de 1350. O general barbudo e ranzinza lembra o anão Gimli, enquanto temos uma mistura da figura sábia de Gandalf com o lado élfico de Legolas no general que desfila sabedoria em trajes brancos. Aragorn não fica de fora, já que Tony Leung encarnará a figura heróica para proteger sua fortaleza, uma réplica da Gondor de Peter Jackson. Há também a figura feminina e sua vontade de participar do conflito armado como nossa rejeitada princesa Eowyn. Por questões narrativas não temos o anel nem seus principais protetores – Frodo, Sam e Smeagol.

Não há uma aparente razão para escolhermos um lado na batalha dos 3 reinos, porém a história e a direção de Woo nos encaminham para tal decisão. A velha máxima do Bem x Mal e dos sacrifícios por um futuro melhor expulsa-nos do reino de Cao Cao (Fengyi Zhang). A parte técnica incluindo direção de arte e fotografia são primorosas, porém o desenvolvimento de um tema tão batido irritará os mais exigentes. Nos longos 150 minutos, encontramos tudo que caracteriza o gênero guerra/épico, desde as batalhas sangrentas até o desenvolvimento de relacionamentos amorosos fundados em estereótipos. A batalha final colocará os rivais frente a frente, num destino que tende a premiar sempre a bondade.

John Woo nos apresenta uma ficção com poucos parâmetros com qualquer tempo/realidade, eis uma nação sempre pronta a guerrear, sem necessidades básicas ou descontentamento público. Essas são as histórias baseadas na tradição / heróismo, espaço onde os valores sobrevivem na sua forma mais utópica. A luta é arte, um balé de vidas perdidas onde o mais importante é a estética e não o ser. A Guerra é inerente ao Homem, mas que seja justa e inesquecível, já que desta forma poderá ser imortalizada na linguagem literal e/ou cinematográfica. O Reino de Woo algumas vezes clama pela Paz mas será através do conflito armado que os principais desentendimentos serão resolvidos. Há do que nos orgulharmos em tanto sangue derramado?