7 – A Batalha dos 3 Reinos (Mostra-SP)

3reinos

Cada vez espero menos do cinema chinês, pelo menos das produções que desembarcam em nosso país. Desde o sucesso e merecido reconhecimento de O Tigre e o Dragão (produção que inclui outros países) percebo que as obras seguem uma linha que peca pela similaridade. Há muita tradição, heroísmo, pirotecnias e coreografias no embate entre os grupos que rivalizam as histórias épicas chinesas. Essa fórmula re-aparece em A Batalha dos 3 Reinos de John Woo. Comecei a respeitar Woo ao assistir o seu curta Song Song na produção Crianças Invísiveis da Unicef. Não a toa o trabalho encerra a seleção internacional com uma alta dose dramática.

Confiei em Woo e principalmente em Tony Leung, ator presente em diversos filmes de Wong Kar Wai. Porém me decepcionei ao ver mais do mesmo, em uma produção de alto orçamento e elevado refinamento visual. O primeiro choque está na narração inicial em inglês, idioma que desaparecerá como fumaça do restante do filme. A impressão é que faltaria uma introdução para o público estrangeiro, portanto uma decisão de quem injeta a verba serviria de explicação. Logo adentramos em uma jornada épica onde os personagens serão apresentados de forma clássica, cada general é nomeado, porém a principal diferenciação não será pelo nome, mas talvez pelo corte de cabelo, barba e figurino.

Algo incomoda na produção, talvez seja a proximidade com a narrativa de O Senhor dos Anéis, visto que os personagens desenvolvidos no filme parecem cópias dos imortalizados na literatura de Tolkien, apesar de Woo adaptar um romance de 1350. O general barbudo e ranzinza lembra o anão Gimli, enquanto temos uma mistura da figura sábia de Gandalf com o lado élfico de Legolas no general que desfila sabedoria em trajes brancos. Aragorn não fica de fora, já que Tony Leung encarnará a figura heróica para proteger sua fortaleza, uma réplica da Gondor de Peter Jackson. Há também a figura feminina e sua vontade de participar do conflito armado como nossa rejeitada princesa Eowyn. Por questões narrativas não temos o anel nem seus principais protetores – Frodo, Sam e Smeagol.

Não há uma aparente razão para escolhermos um lado na batalha dos 3 reinos, porém a história e a direção de Woo nos encaminham para tal decisão. A velha máxima do Bem x Mal e dos sacrifícios por um futuro melhor expulsa-nos do reino de Cao Cao (Fengyi Zhang). A parte técnica incluindo direção de arte e fotografia são primorosas, porém o desenvolvimento de um tema tão batido irritará os mais exigentes. Nos longos 150 minutos, encontramos tudo que caracteriza o gênero guerra/épico, desde as batalhas sangrentas até o desenvolvimento de relacionamentos amorosos fundados em estereótipos. A batalha final colocará os rivais frente a frente, num destino que tende a premiar sempre a bondade.

John Woo nos apresenta uma ficção com poucos parâmetros com qualquer tempo/realidade, eis uma nação sempre pronta a guerrear, sem necessidades básicas ou descontentamento público. Essas são as histórias baseadas na tradição / heróismo, espaço onde os valores sobrevivem na sua forma mais utópica. A luta é arte, um balé de vidas perdidas onde o mais importante é a estética e não o ser. A Guerra é inerente ao Homem, mas que seja justa e inesquecível, já que desta forma poderá ser imortalizada na linguagem literal e/ou cinematográfica. O Reino de Woo algumas vezes clama pela Paz mas será através do conflito armado que os principais desentendimentos serão resolvidos. Há do que nos orgulharmos em tanto sangue derramado?

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