O Anoitecer de uma Saga

30/09/2009

crepusculo

O anoitecer de uma saga:

Considerações sobre a falta de Luz em Crepúsculo.

Thiago Carvalho Barbosa

Alguns personagens literais adquirem status clássico quando reproduzidos e disseminados entre diversas culturas. Contos e lendas sobrenaturais ajudaram diversos caracteres a avançar pelo tempo com certas mudanças, porém é fato que a essência permaneça, mesmo com a influência da tradição oral e a incorporação de significados pessoais à história. Entre estes personagens temos um com grande destaque na literatura e no cinema – o vampiro. Sede por sangue e dentes afiados apareceram em filmes de Fritz Lang, Francis Ford Coppola e recentemente na direção pouco hábil de Catherine Hardwicke. A tarefa de adaptar uma história para as telas de cinema não é das mais fáceis e quando a mesma é apadrinhada por milhares de fãs cresce o risco de conceber um fiasco.

Em Crepúsculo (Dir. Catherine Hardwicke, 2008) morte e natureza dividem o mesmo espaço desde o princípio da obra, um olhar desatento pode confundir os primeiros planos com os de Na Natureza Selvagem (Dir. Sean Penn, 2007) mesmo que a única coincidência seja o retorno de Kristen Stewart (Bella) para um papel introspectivo. As primeiras cenas de Bella evidenciam como o roteiro é pobre na construção de diálogos visto que a narração em off é usada excessivamente pela personagem durante toda a produção. Bella é uma adolescente reservada que decide passar algum tempo com o pai, sujeito que mora em uma cidade abandonada pela adolescente há muitos anos, alguns conhecidos da família permanecem, porém a relação com os mesmos precisa ser construída do zero.

A escola é o melhor espaço para o desenvolvimento de relacionamentos na fase adolescente. O primeiro dia letivo não seria tão especial se Bella não fosse o centro das atenções do colégio. A beleza da personagem atrai garotos e garotas dispostos a firmar amizade e conhecer a nova aluna. Porém quem seduz Bella é um rapaz com ares misteriosos. Não há suspense quanto a quem integra o grupo de vampiros, o enigma dissolve-se na maquiagem e no tom pálido adotado. O espectador não precisa se esforçar para categorizar os grupos, logo conhecemos o galã Edward Cullen (Robert Pattinson) em uma troca de olhares reproduzida em câmera lenta – destaque da diretora para a primeira flechada do cupido. Assim como o rosto anêmico dos personagens, a obra carece de coloração, o tom desbotado da fotografia não faz jus a uma história que contenha vampiros. Tim Burton e Johnny Depp ficariam vermelhos de vergonha com a falta de cor do filme de Hardwicke.

Não por acaso o par romântico senta lado a lado na aula de Biologia, matéria que descobriremos no decorrer do filme ser a única a integrar o currículo escolar. Infelizmente a ciência de Mendel não explica a origem do vampirismo, novamente a mística concede respostas para assuntos que a razão discrimina. O Google, oráculo do novo milênio, guia a jovem Bella a uma livraria na qual concluirá que Edward prefere furos no pescoço a cortes de cabelo. Paralelamente uma série de assassinatos tenta sem sucesso construir um suspense na narrativa fundada na inesgotável fórmula shakespeariana – Romeu e Julieta.

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A Rosa de Woody Allen

16/09/2009

rose

Uma Rosa para o Cinema:

Woody Allen e a Homenagem ao Cinema em A Rosa Púrpura do Cairo

 

Thiago Carvalho Barbosa

 

A abertura do filme A Rosa Púrpura do Cairo (1985) dá indícios da posterior construção que o diretor estadunidense Woody Allen realizaria no decorrer da produção. A música Cheek to Cheek eternizada na cena entre Fred Astaire (1899 – 1987) e Ginger Rogers (1911-1995) no filme Top Hat (Dir. Mark Sandrich,1935) marca com saudosismo a homenagem de Allen ao Cinema e sua História. Paulatinamente a câmera percorre o pôster retrô do então A Rosa Púrpura do Cairo, titulo da obra que a personagem Cecília (Mia Farrow) admira hipnoticamente. Eis a primeira metalinguagem fabricada pelo diretor, o nome do filme está dentro da própria obra.

O barulho provocado pela queda de um objeto tira Cecília de sua condição contemplativa, a volta da personagem para a realidade parece frustrante, mas na rotina de trabalho ela continua expressando sua paixão pelo cinema através dos diálogos com a irmã (Stephanie Farrow). Ambas são garçonetes de um restaurante, porém Cecília é marcada pela desatenção sendo constantemente alvo das reclamações de clientes e patrão. Depois de apresentar o passatempo e o ambiente de trabalho de sua personagem chave, Allen ruma para o ambiente doméstico. Conhecemos o marido de Cecília, Monk (Danny Aiello), um sujeito desempregado que joga dados com os amigos. A grande depressão é a desculpa para a preguiça de Monk sustentado pela própria esposa.

Monk compartilha uma visão ingênua e preguiçosa do período, a qual acreditava que o país daria a “volta por cima” sem qualquer esforço ou intervenção do Estado e sociedade. Porém o que entristece Cecília é o fato do marido não partilhar sua admiração pelo cinema, em nenhuma das sessões, mesmo quando a esposa fica desempregada ele a acompanha. Monk prefere ficar em casa e receber a visita de uma amiga, ambos são surpreendidos por Cecília que classifica tal encontro como uma traição do marido. A personagem arruma as malas e decide sair de casa, mas não encontra abrigo além das casas de prostituição da época. A volta para casa parece representar a dependência do feminino ao masculino, principalmente no casamento.

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O Jogo da Morte

26/06/2009

Selo

A Morte é inevitável: Reflexões sobre o final de O Sétimo Selo

Thiago C Barbosa

“Tanto quanto me lembro, vivi a puberdade e até quase fazer vinte anos com um horror terrível da morte. Chegava a ser insuportável. (Ingmar Bergman)

Uma forte tempestade direciona um grupo de personagens a um sombrio castelo medieval. Após uma longa jornada por uma Europa devastada pela peste, o cavaleiro, caractere principal deste enredo, chega a sua residência e re-encontra sua esposa acompanhado por um grupo de amigos. Tal contexto que poderia ser associado a termos como “refúgio” e “conforto” esconde na verdade o último suspiro dos personagens de “O Sétimo Selo” (1957), obra que no decorrer de décadas ganhou notoriedade na filmografia de Ingmar Bergman (1918 – 2007).

O jantar que precede a chegada da “Morte” parece envolto em medo e angústia. Bergman utiliza “close-ups” enquanto um dos personagens faz a leitura do Apocalipse, trecho bíblico que descreve o “fim dos tempos”. Batidas na porta silenciam o grupo que parece temer algo ou alguém. O fiel escudeiro do cavaleiro se prontifica a ver quem incomoda o jantar e ao voltar relata que nada encontrara ao batente da porta.

A cena prossegue e novamente Bergman utiliza o recurso “close-up” para demonstrar o horror na face da personagem ao ver a chegada da “Morte”. Com rosto pálido e capa preta, a “Morte”, observa enquanto parte dos caracteres se apresentam em uma fraca tentativa de perdão e redenção. Enquanto todos se curvam ao destino, o cavaleiro começa a orar pedindo misericórdia a “Deus”. Lembremos que no decorrer de todo o filme o cavaleiro tivera uma profunda inquietação relacionada à existência ou não desse mesmo Deus pelo qual clama ao final. A oração ganha intensidade em uma tentativa desesperada de escapar da morte assim como o jogo de xadrez fora em todo o filme.

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EZTETYKA DA FOME

01/05/2009

glauber

“Dispensando a introdução informativa que se transformou na característica geral das discussões sobre América Latina, prefiro situar as reações entre nossa cultura e a cultura civilizada em termos menos reduzidos do que aqueles que, também, caracterizam a análise do observador europeu. Assim, enquanto a América Latina lamenta suas misérias gerais, o interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria, não como sintoma trágico, mas apenas como dado formal em seu campo de interesse. Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino.”

Eis -  fundamentalmente – a situação das Artes no Brasil diante do mundo: até hoje, somente mentiras elaboradas da verdade ) os exotismos formais que vukgarizam problemas sociais) conseguiram se comunicar em termos quantitativos, provocando uma série de equívocos que não terminam nos limites da Arte mas contaminam o terreno geral do político. Para o observador europeu, os processos de criação artística do mundo subsesenvolvido só o interessam na medida que satisfazem sua nostalgia do primitivismo, e este primitivismo se apresenta híbrido, disfarçado sob tardias heranças do mundo civilizado, mal compreendidas porque impostas pelo condiconamento colonialista.

A América Latina permanece colônia e o que diferencia o colonialismo de ontem do atual é apenas a forma mais aprimorada do colonizador: e além dos colonizadores de fato, as formas sutis daqueles que também sobre nós armam futuros botes. O problema internacional da AL é ainda um caso de mudança de colonizadores, sendo que uma libertação possível estará ainda por muito tempo em função de uma nova dependência.

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