Quem é o único diretor com dois filmes em cartaz no circuito comercial de São Paulo? Olha aí o bom velhinho nos presenteando no Natal.
A Matrix de James Cameron
21/12/2009Depois de um longo período de trabalho, eis que chega sexta-feira, dia para conferir as estréias cinematográficas da semana. Porém nenhum filme fora mais aguardado neste fim de ano quanto Avatar, produção milionária do então inativo James Cameron. O esforço para chegar cedo a sessão, escolher um belo lugar e desfrutar do filme de ínicio ao fim emperrou no trânsito da cidade, provocando um atraso de 15 minutos, tempo precioso e perdido sem direito a choro, nem vela. Tantos dias alimentando o desejo de ver algo que o Marketing elevou como a maior experiência filmica da década que o impulso de colocar os óculos 3D e começar a visualização foi mais forte do que qualquer lamento.
Não é segredo que desde Up – Altas Aventuras tenho um affair com filmes em três dimensões. Gosto da sensação de profundidade e do salto da imagem, mesmo percebendo que o aparato ainda tem fortes deficiências. Uma das estratégias publicitárias de Avatar prometia corrigir tais falhas, fato que aliado a alta tecnologia empregada formariam junto ao gênero aventura os principais atrativos da produção. O filme consegue avançar na tecnologia 3D com imagens altamente atrativas, principalmente quando imergimos no ecossistema do planeta Pandora, contudo enquanto narrativa, a produção de Cameron segue o velho Feijão com Arroz.
Apesar das promessas “políticas”, diversos elementos que integram Avatar possuem proximidade com outras produções. Comecemos pela história, a entrada de Jake Sully (Sam Worthington) e sua turma em um ambiente desconhecido e hostil – o planeta Pandora – astro que poderia integrar qualquer galáxia da saga Star Wars de George Lucas. A vegetação do filme é complexa mas baseada na diversidade das maiores florestas tropicais da nossa mal-tratada Terra. A decisão de investigar tal planeta se deve a existência de um minério, uma fonte alternativa de energia altamente valiosa, sobre este objeto o filme destacará a ganância do homem e seu poder de destruição quando o assunto envolve um punhado de doláres.
A sobrevivência em Pandora envolve alta tecnologia já que a atmosfera do planeta é tóxica, não fornecendo as moléculas necessárias a respiração humana. Portanto um dos meios de exploração do ambiente ocorrerá através de clones do povo Na´vi, seres azuis que formam um contraste com a mistura de cores do ecossistema. Tais avatares são uma forma virtual de imersão num cenário onde o deslocamento espacial ocorre como em Matrix, porém sem a filosofia encontrada no filme dos irmãos Wachowski. Jake Sully, o típico jovem inconsequente é aquele que irá figurar como herói da trama, posição construída após ser salvo por Neytiri (Zoe Saldana), a princesa dos Na’vi.
O convívio de Jake Sully com a tribo Na’vi despertará o jovem fuzileiro para aspectos culturais, antes descartados pelos objetivos da missão que integrava. Apesar dos corpos azuis, orelhas pontiagudas e a exagerada altura, a população Na’vi tem costumes familiares aos principais povos tribais dos quais temos registro e conhecimento. Eis o contraste da natureza com a ciência que não conseguem coexistir no mesmo ambiente, logo Jake percebe a importância da preservação do hábitat e seus integrantes, animais alados e terrestres que parecem misturas dos dinossauros de Spielberg com as criaturas oníricas de Guillermo Del Toro.
O lado humano também possui suas particularidades com a figura do ganancioso empresário Parker Selfridge (Giovanni Ribisi), do general estereotipado Miles Quaritch (Stephen Lang) e da bondosa cientista Grace Augustine (Sigourney Weaver) assustadoramente um grupo que representaria individuos qualificados para uma missão de grande importância, o desembarque em um local desconhecido como Jurassic Park. Essa turma conduz telas virtuais parecidas com as utilizadas por Tom Cruise em Minority Report e robôs importados da quase extinta cidade de Zion. Obviamente nada foi copiado, mas talvez aperfeiçoado pela exuberante tecnologia lançada por Cameron.
E se cada detalhe recorda inúmeros filmes, o mesmo ocorre com a narrativa transformada em épico shakesperiano, uma história marcada pelo amor proibido, traições e sacrifícios. Dentre tanto sofrimento há a figura do escolhido, o salvador – Jake Sully, um militar paraplégico, condição que serviria de crítica as consequências da guerra, mas como a questão não é discutida reverte como elemento dramático, visto que Jake retoma os movimentos com seu avatar, um enigma parecido com o de John Locke em Lost. Assim como Locke, Jake terá uma experiência que causará imenso prazer, pondo em dúvida se valeria a pena voltar ao estado anterior.
Talvez o último filme que tenha despertado tamanha curiosidade do grande público tenha sido O Retorno do Rei, produção que fecha a trilogia O Senhor dos Anéis. O Retorno do Rei também se vangloriava do lançamento de novas tecnologias visuais, porém se há uma diferença evidente além do 3D no filme de Cameron, seria a adaptação por Peter Jackson de uma história infinitamente mais rica. Não dá pra comparar Tolkien com Cameron, nem valeria a pena em virtude dos objetivos e diversos outros quesitos. Avatar atinge em cheio o público de diversas faixas etárias com seu melodrama pacifista. O filme precisa recuperar o gasto – investimento alto no politicamente correto.
Ao sair da sessão me senti como uma criança que vê pela primeira vez o mar e fica estarrecida com sua grandeza visual, porém com o tempo a mesma criança percebe que aquele mar preserva caracteristicas iguais, alteradas pela altura das ondas. O filme de Cameron é uma grande onda hawaiana que inunda nossos olhos, mas que desaparece instantaneamente. Parece que há algo novo, a sensação tecnológica que logo se difundirá entre dezenas de filmes. Agora é torcer para que a bomba atômica de James Cameron seja bem utilizada e não cause naufrágios do tamanho de um Titanic. Hollywood conhece o efeito de um filme como Avatar mas continuará cautelosa quanto aos gastos. Parece que nosso ecossistema cinematográfico continuará caminhando para a destruição.
Avatar é uma feijoada que pesará por algum tempo no estômago, os comentários sobre uma possível continuação ecoam pelos bastidores…
Hora de Avatar
18/12/2009A Versão Viciada de Werner Herzog
14/12/2009Não assisti ao filme de Abel Ferrara para emitir qualquer comparação com Vício Frenético, última produção de Werner Herzog. Aliás várias entrevistas cômicas envolveram o lançamento do filme do diretor alemão, que entre algumas declarações jurou não ter visto o filme de Ferrara, desconhecendo a existência do mesmo. Herzog enfatizou que o melhor seria ignorar a versão anterior para não sofrer qualquer influência no desenvolvimento do roteiro, porém para muitos críticos a comparação é inevitável. A pergunta que não cala – Qual o melhor?
No filme de Herzog somos transportados para Nova Orleans, cidade arrasada pelo furacão Katrina, porém o local é só uma adaptação temporal que pouco contribui para a trama. O fato mais interessante estará no anti-herói Terence McDonagh (Nicolas Cage), um policial viciado que conduzirá a investigação de um homicídio onde os principais suspeitos são traficantes de drogas. Para completar o submundo, Terence namora Frankie (Eva Mendes), uma prostituta de luxo, sempre presente na hora de dividir o trago ou o pó. Entre inúmeros planos, os mais cômicos serão os que o policial sofrerá alucinações.
O filme fica divertido com a falta de limites de Terence para satisfazer a própria abstinência. Quando drogado, o policial encontrará iguanas, animais que são parte de um conjunto natural que Herzog insere na narrativa. Talvez uma das melhores cenas do filme seja a do crocodilo observando seu par atropelado na rodovia, como se lamentando uma perda, fato totalmente dispensável para a história mas que revela uma pitada de criatividade do diretor alemão. O Humor Negro é um dos principais atrativos da obra assim como a aproximação de Terence dos vilões, demonstrando sua imensa fraqueza enquanto policial.
Tenho que revelar que o mais intrigante é ver Werner Herzog por trás de um filme como este, sem julgar a qualidade da obra. Contudo uma produção americana com poucas possibilidades para o diretor transpor sua imensa criatividade, constatada nos diversos filmes das décadas de 70 e 80. Seria um caso onde o dinheiro teria falado mais alto? Perguntas a serem esquecidas, assim como o filme que prima pela recuperação de Nicolas Cage em uma atuação mediana, porém superior se comparada aos péssimos filmes que o ator vinha participando anteriormente.
Talvez o filme surpreendesse critíca e público se o papel de Terence fosse do genial melhor inimigo de Werner – Klaus Kinski. Porém o genêro é policial e ficaria dificil ressuscitar Klaus para salvar Herzog. Vicio Frenético busca um clima Noir, longe de ser encontrado, tornando-se extremamente comum e decepcionante para quem conhece “El Loco” Herzog. Werner perdeu um pouco da forma, agora é torcer para que “My Son, My Son, What Have Ye Done” seja melhor e não apenas uma pergunta a ser destinada ao próprio diretor em relação a sua brilhante carreira.
Tetro de Vidro
11/12/2009O último filme de Francis Ford Coppola não passou despercebido pelo meu radar, apesar do caráter quase independente da produção. Tetro inicia sua jornada como uma obra cinematográfica que contém elementos e citações a outros segmentos artísticos como o teatro e a música. Para enriquecer o ambiente, Coppola selecionou justamente uma das cidades sulamericanas que respira e transpira cultura - Buenos Aires. A escolha de La Boca para o re-encontro entre os irmãos Tetro (Vincent Gallo) e Bennie (Alden Ehrenreich) ilustra a degradação de uma relação familiar envolta em um grande mistério.
A visita de Bennie ao irmão mais velho funciona como uma fuga ao poder econômico familiar, já que Tetro sobrevive na simplicidade do famoso bairro argentino com uma profissão um tanto curiosa – iluminador. Tetro ilumina as peças alheias já que suas próprias criações permanecem presas ao passado obscuro. Enquanto isso Bennie tenta descobrir os motivos que levaram um talentoso escritor a se exilar, contudo a disposição de Tetro em revelar segredos de sua vida particular é quase nula. O filme de Coppola sobrevive pela paulatina abertura que Tetro concede ao irmão que por várias vezes buscará respostas com a ajuda da cunhada.
Um dos pontos altos da produção encontra-se na fotografia em preto e branco que diversas vezes será confrontanda com flashbacks coloridos. Essa inversão estranha demarcará de forma especial o passado e as angústias de Tetro. O filme tem vários elementos melodramáticos, apesar de ser uma produção essencialmente norte-americana, é perceptível que Tetro tem sangue latino impulsionado pelo cenário e pela trilha-sonora que dá ritmo de tango a uma tragédia anunciada. Ao final parece que Coppola atinge o objetivo de desenvolver algo próprio, sem grandes intervenções de estúdios e produtores.
O filme caminha para a consagração de Tetro que com a ajuda do irmão consegue entrar na disputa de um Festival de Teatro. Porém quanto mais a história se desenrola, mais os dois irmãos vão chegando perto do grande mistério que envolve a família e o filme. A história é simples, assim como o desfecho da obra, porém o que encanta é a supremacia de Coppola como diretor, um sujeito seguro em seus devaneios. O que seria aquele canto estranho que em diversos trechos eleva a narrativa a um estado onírico? Composição muito parecida a outra utilizada por Alain Resnais em uma de suas obras.
Obviamente Coppola não obterá reconhecimento por Tetro, seu passado parece preso a Trilogia O Poderoso Chefão e a Apocalypse Now, filmes onde investiu muito tempo e dinheiro. O caráter autoral do diretor passou por uma profunda transformação, já que o esforço sobre-humano visto em Apocalypse Now dificilmente se repetirá em outra obra. Mesmo assim, Tetro, um filme ainda estranho para mim, merece ser visto já que provém de alguém com um currículo invejável. Veja o trailer abaixo:
Tudo Pode Dar Certo
09/12/2009A música de abertura de Tudo Pode Dar Certo apresenta a chancela autoral de Woody Allen, uma sonoridade parecida com a composição interpretada por Fred Astaire e Ginger Rogers no clássico A Rosa Púrpura do Cairo. A ambientação da trama na cidade de Nova York também marca o retorno de Allen a um tipo de cinema que dialoga diretamente com o espectador, uma relação próxima que toma ares de brincadeira no decorrer da produção. A primeira surpresa aparece justamente com o olhar de Boris (Larry David) para a câmera , fato que configura uma quebra ficcional e tentativa de envolver o público com a narrativa.
Boris, o centro de toda a trama é um sujeito com idade avançada e língua afiada, um típico pessimista que maltrata todos a sua volta. Com uma personalidade tão negativa, o personagem tentará o suicidio, ação mal-sucedida que acarretará num problema na perna. Boris manca assim como Eugênia, personagem do fúnebre Memórias Póstumas de Brás Cubas , obra de Machado de Assis. O caminhar irregular fica atrelado ao medo da morte, Boris se arrasta para o que já entende como o fim da vida. Porém há um elemento que mudará a rotina desse velho rabugento, algo que ele perdeu mas pode recuperar na figura de outra personagem – a juventude.
O encontro casual de Boris com Melodie (Evan Rachel Wood), uma garota que foge de casa para tentar a sorte na Big Apple, provocará situações cômicas, já que presenciaremos a relação da sabedoria com a ingenuidade. Melodie é uma personagem estereotipada, uma típica moça do interior com defasagem intelectual, contudo haverá uma osmose entre ela e Boris que resultará no casamento entre ambos. Tal união deixa evidente, apesar da diferença absurda de idade e demais empecilhos, que o casal apaixona e completa-se através da troca de experiências distintas.
O azar ronda Boris que aos poucos vai perdendo a esposa para um rapaz que a seduzirá pela apresentação jovial. Randy James (Henry Cavill) tentará convencer Melodie que o atual esposo não é o parceiro ideal para uma moça tão jovem e bonita. Boris que rejeitava qualquer relação sentimental com Melodie ficará magoado com a situação, circunstância que evidência o quanto Melodie provocou transformações em sua vida, antes restrita a encontros com os velhos amigos e aulas de xadrez para crianças.
O filme esquenta no final com as situações absurdas provocadas pela chegada dos pais de Melodie a cidade. Importante salientar que todos esses personagens passarão por profundas transformações pelo encontro com Boris e a cidade de Nova York. Quem se identificar com o humor negro produzido por Boris, ficará satisfeito com o novo filme de Allen que dificilmente erra a mão no desenvolvimento de um roteiro. Não é a melhor produção do diretor mas um suspiro que resgata outros grandes sucessos do cineasta, demonstrando que as coisas ainda podem dar certo.
Terror Para Anormal
04/12/2009Vale a pena desconfiar das produções envoltas por grandes campanhas de Marketing, já que por vezes o que está na embalagem não condiz com o referido produto. Eis o caso de Atividade Paranormal, filme que causou estardalhaço nas bilheterias norte-americanas e que chega as salas brasileiras neste final de semana. Produção de baixo orçamento, Atividade Paranormal requenta a fórmula de A Bruxa de Blair, investindo na lei dogmática da câmera na mão e no discurso no qual a ficção é pura realidade. O trailer que centra parte da atenção na feição assustada de um grupo de espectadores faz parte da estratégia de um filme que cogita ser o melhor do gênero terror neste século.
Tal propaganda seduziu muitas pessoas, inclusive este que vos escreve. O que observamos no ínicio do filme é a exposição da intimidade de um casal preocupado com os eventos estranhos que cercam o novo domicilio. O investimento em uma câmera digital ajudaria ambos no registro do que ocorre durante as noites de insônia e medo. Rapidamente a montagem com recortes excessivos desmantela o caráter documental da obra, dividida entre gritos e silêncios. O problema é que quando a personagem silenciava e perguntava a outra se estava ouvindo algo, nós espectadores éramos engolidos pelas ondas do trágico 2012 da sala ao lado.
Talvez o mais interessante na produção seja a relação afetuosa entre Micah e a Câmera, objeto que por vezes é mais importante que a própria namorada. A lente que inicialmente serve de entretenimento para o casal, logo será o meio que comprovará a existência de alguma entidade sobrenatural na residência. Enquanto Katie quer exterminar o problema, seu namorado quer comprová-lo empiricamente, para tal eis que existem as principais tecnologias que compõem o registro audiovisual – microfone, gravador e computador além da própria câmera. O velho confronto da ciência versus o inexplicável.
Pela enésima vez a mulher é a culpada pela instalação demoníaca, visto que Katie, a possuída pelo fantasma (que jamais veremos a não ser através da movimentação de outros objetos) é a mais sensível aos sinais que a acompanham desde a infância. Os recursos para assustar o espectador são similares aos de A Bruxa de Blair. A câmera trêmula quando fixa é o primeiro aviso de que algo pode ocorrer e no silêncio aguardamos a vinda do fantasma que bate portas e acende luzes como um hóspede indesejado. Esperei ansiosamente pelo susto que não levei.
O filme do estreante Oren Peli é fraco e enganador, um terror nada original que segundo as más linguas recebeu orientações de Steven Spielberg quanto ao final para que uma provável continuação fosse possível. A sequência de Atividade Paranormal está prevista para 2012, ano que o cinema já decretou como o último da humanidade. Pelas duas últimas produções que acompanhei (Drag Me to Hell), o gênero terror passa por uma imensa crise, falta criatividade em filmes que categorizo enquanto comédias de tão pobres. Saí assustado da sala ao perceber como a estratégia de Marketing pode contribuir para o sucesso de um fracasso. Acompanhei alguns da sala que riram ao final e vociferaram – Quero meu dinheiro de volta!
13 – Seguindo em Frente (Mostra – SP)
23/11/2009Seguindo em Frente é um filme para os pacientes, realizado para quem gosta de observar conflitos familiares em um ritmo lento, situação bem distante da nossa pitoresca agitação latina. Obviamente estamos no Japão, país onde uma família se reunirá para lamentar a perda de um filho há 15 anos. O ritual funciona mais como uma obrigação, momento onde pais e filhos lavam silenciosamente a roupa suja guardada por anos em um cesto apertado. Entre tantas mágoas a figura de uma criança pode ajudar a dissolver os principais conflitos.
No ínicio do filme acompanhamos a dolorosa ida de Ryota (Hiroshi Abe) à casa dos pais, em sua companhia estão a namorada e o afilhado, personagens prestes a conhecer uma família com diversas feridas não cicatrizadas. Eis um outro constrangimento, o fato de Ryota namorar uma viúva com filho de outro homem não é bem visto por uma sociedade tão presa a antigas tradições quanto a japonesa. Na casa dos pais, a mãe e a irmã de Ryota discursam sobre a chegada da mulher enquanto preparam os principais quitutes da culinária local.
Hirokazu Koreeda cozinha a narrativa em fogo baixo em mais uma homenagem ao cinema do mestre Yasujiro Ozu. A lenta aproximação do patriarca começa a apresentar os piores defeitos de cada integrante da família Yokoyama. A mãe de Ryota não tem papas na língua enquanto o pai, um médico aposentado preocupado com o status do clã é tão fechado quanto o filho, sujeito retraído que sofre com a lembrança do irmão falecido, o principal herdeiro da família. A figura infantil será a única a aproximar Ryota de seu pai, mais do que uma esperança, o filho indesejado da namorada representará o renascimento de uma estrutura quase destruída.
A família Yokoyama conta as horas para se separar, o que seria próximo a um almoço de Domingo vira um lento martirio. A visita ao túmulo do irmão falecido é a última etapa de um encontro triste, onde Ryota omite o próprio desemprego da família. Ninguém quer dar o braço a torcer, é preferível esconder os problemas a discutí-los. Existe uma bela casa mas a base está apodrecida, prestes a ruir. Ao final Ryota lamenta a falta de contato com os pais, as atividades que deixou de realizar com ambos, importante momento de reflexão na obra. Seguindo em Frente parece um caminho cheio de pedras, local por onde saltamos sem solucionar os conflitos da vida.
Talvez o cinema japonês seja o mais adequado para tratar da família com tanta calma. Os problemas parecem os mesmos de qualquer nação mas a forma delicada como passam pela tela ajudam o espectador a respirar e pensar sobre a própria vida. Como o filme vai nos revelar – Muitas vezes é melhor parar antes de seguirmos em frente.

Publicado por Thiago
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